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O contexto das nossas crianças está adoecido

  • Foto do escritor: Silvana Pozzobon
    Silvana Pozzobon
  • 10 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Crianças que não dormem o suficiente porque o barulho da rua invade a madrugada. Crianças que passam fome e, por isso, têm o córtex pré frontal funcionando em modo de sobrevivência, não de aprendizagem. Crianças neurodivergentes sem diagnóstico, porque acesso à saúde mental ainda é privilégio. Crianças que cresceram no isolamento da pandemia, mergulhadas em telas mais por solidão do que por escolha.


Quando falamos em falta de fluência, deveríamos também falar em falta de saúde integral, falta de estabilidade emocional, falta de espaço seguro para errar, repetir, brincar e aprender.


A leitura não falha sozinha. Ela falha junto com o país.


A matéria menciona o impacto das telas, mas não nomeia uma verdade desconfortável. A tecnologia não é o problema. O problema é o uso solitário, desregulado e descontextualizado, sem mediação adulta, sem intencionalidade pedagógica, sem alfabetização digital que ensine ritmo, foco e pausa.


Fala se também da formação insuficiente dos professores, mas silencia a respeito do desgaste emocional de quem ensina. Como formar vínculos de leitura com quem está exausto, adoecido, sobrecarregado, ganhando pouco e carregando turmas lotadas? A alfabetização exige presença emocional, e presença emocional exige condições de trabalho.


A crítica mais dura que faço é esta: quando tratamos a leitura apenas como técnica, ignoramos o humano. A criança que silaba está dizendo algo com o corpo inteiro: Eu preciso de atenção. Eu preciso de tempo. Eu preciso de mundo. Eu preciso de significado.


A leitura se constrói como experiência compartilhada, como projeto, como problema a ser investigado pelo grupo, como diálogo entre áreas, como ponte para compreender o mundo, não como corrida solitária de palavras por minuto. Aqui, ainda insistimos em medir velocidade antes de medir pertencimento.


Não existe fluência leitora onde há sofrimento silencioso. Não existe interpretação de texto onde falta interpretação da vida. Não existe Era uma vez quando o cotidiano é urgência.


A criança não é um dado alarmante. Ela é um pedido de socorro. E, se acolhermos esse pedido com a seriedade que ele exige, talvez ela possa finalmente ler o mundo antes mesmo de ler a palavra.


 
 
 

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Criado por Siomara Guzelotto e Luiza Guzelotto     

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